segunda-feira, 18 de julho de 2016

letra C • Comboios

Se há dois trabalhos que sempre vi na mesma linha de representação da modernidade são L'absynthe, de Degas, e Le wagon de troisième classe, de Daumier. Creio mesmo que chegaram a ganhar uma dimensão própria no espaço da minha memória visual - não sei se por causa do ar alienado das várias figuras ou por, muito simplesmente, se encontrarem todos sentados à espera de não se sabe bem o quê...

Degas | Daumier

Desde cedo vi o comboio mais como uma sala de espera do que como um mero meio de transporte. Tal como numa sala de espera, entramos, sentamo-nos, lemos um bocado, ouvimos a história sobre a vizinha da senhora que não se cala, lemos mais um bocado, dormitamos um nadita, saímos e lá vamos à nossa vida.

O comboio encerra em si mesmo um grande número de realidades que se desmultiplicam em motivos para desenhar: o espaço interior (com ou sem passageiros), o espaço exterior (estações e linhas férreas), as viagens (inter rail, dia-a-dia), os hobbies (miniaturas, trainspotting*), ou os próprios comboios.

 
Em Portugal
Em Inglaterra
Em Espanha

Quer para estudar (nos velhos comboios com bancos de cabedal verde) quer para trabalhar, o comboio sempre foi o meu transporte de eleição mas sempre senti alguma apreensão quando desenhava em público.
Fazia de tudo para não ter que fitar os outros passageiros: ora ficava todo cabisbaixo...
...ora mantinha o meu olhar bem acima das outras pessoas.

Com o tempo lá fui ganhando confiança e, sempre que não me deixava dormitar nem me esquecia de trazer um livro para ler, lá tirava eu do caderno para desenhar. Primeiro outros passageiros mais sonolentos...
Zzzzz...

Ou tão simplesmente o espaço vazio de pessoas.

Mas logo os meus desenhos começaram a ser habitados por gente incauta...
...ou por gente que, simplesmente, se deixava permanecer na tal "sala de espera" o tempo suficiente para eu os registar no meu caderno.
E cá sigo experimentando várias composições, várias molduras, diversas técnicas, diversos materiais, paletas diferentes...

Urbano | Regional

Posto isto, vou mantendo um álbum no flickr (aqui) só com desenhos feitos no comboio (para além dos outros). Por falar nisso, já carece uma atualização, já...   =)

Agora, aproveito para vos aconselhar a seguir o trabalho de Alan Cloiseau (@attention_a_la_marche) no instagram - conseguiu criar um estilo muito próprio com este projeto - e ainda Subway Life, de António Jorge Gonçalves.


* Não confundir com o filme. Olhem que há quem leve isso do trainspotting muito a sério - acreditem...!


Próximo post: letra D • Dança

6 comentários:

  1. Excelente post! e o álbum está maravilhoso! Parabéns!

    ResponderEliminar
  2. Muito bom! Tal e qual, uma sala de espera com muitos entretenimentos!

    ResponderEliminar
  3. Very nice! Os 2 últimos desenhos têm um estilo bastante bom.

    ResponderEliminar
  4. Espectaculares como sempre! gostei do "processo" histórico, e das referências a outros autores, que nunca são demais (para mim nada bate Honoré Daumier - a ponto de ter feito uma t-shirt alusiva a este velhote - just call me old-fashioned) :)

    ResponderEliminar
  5. Super interessante este post e toda a série.

    ResponderEliminar
  6. Ui! Já lá vai um tempito, hein...?
    Entretanto começaram as aulas e o tempo voou sabe-se lá para onde...

    Obrigado pelos comentários - fico contente que estejam a gostar!
    A ver se esta semana avanço com mais uma letra. =D

    ResponderEliminar